terça-feira, 31 de julho de 2007

Auto da Gamela


Diz o Aurélio: Gamela, vasilha de madeira ou de barro, com a forma de alguidar ou escudela grande, para lavagem e/ou para dar comida aos animais domésticos.
Diz um dos saltimbancos: “Auto é uma história dramática, todo mundo já sabe”.
O Auto da Gamela é homenagem pura. Baseado na obra homônima de dois escritores do sudoeste baiano da década de 80, é encenado pela Finos Trapos- companhia teatral baiana maciçamente integrada por conquistenses. A peça narra a história de sertanejos que concebem Francisco, uma alusão clara à história de Cristo. Para isso,utilizam-se da metalinguagem na forma de um grupo de teatro mambembe, como os tradicionais saltimbancos que se espalharam pelo nordeste, levando um pouco de cultura às regiões mais distantes.
Ao chegar num vilarejo, o grupo começa a encenar o tal Auto, alternando drama e comédia, transbordando poesia e lirismo, através das suas figuras mitológicas (destaque para a aparição da Nossa Senhora dos Verdes- brilhante). Ainda possui função social, denunciando a seca, a pobreza e consequentemente o descaso dos demais com o povo nordestino.
As boas surpresas não se resumem ao enredo e boas atuações. As músicas cantadas no espetáculo são de uma beleza singela, o palco é muito bem aproveitado, com um cenário ágil e multifacetado.
Ao fim da peça, a sensação é das melhores. É possível se emocionar e rir, com um produto de qualidade que não se prende aos paradigmas das montagens populares daqui. Se depender deles, o teatro baiano tem salvação.

The Painted Veil

Malditos distribuidores cinematográficos brasileiros e seus títulos nefastos e marketeiros. Mais uma vítima foi feita ao estrear em solo nacional. The Painted Veil (que originalmente seria O Véu Pintado) de John Curran (diretor de Tentação), ganhou a horrorosa alcunha de Despertar de uma paixão, nomezinho abstrato e simplório, para atrair casais apaixonados e desavisados aos cinemas.
O filme, interpretado por Edward Norton e Naomi Watts- também produtores da obra- é sim um drama romântico. Mas deveria interessar o publico pela sua história intensa (baseada num livro que já rendeu algumas outras adaptações para o cinema) e não pelo nome.
Ambientado na China rural da década de 20 (o que rende imagens absurdamente belas na tela), o filme inicia-se com o infectologista Walter Fane iniciando uma viagem desagradável com a sua esposa Kitty. Descobre-se o motivo por meio de flashbacks que vão se intercalando com a jornada do casal: ela, uma dama enfadada da aristocracia britânica aceita o matrimônio com ele por conveniência. Partem então para a Xangai vítima do imperialismo, onde ele trabalha. Decepcionada com a expectativa do seu novo lar, Kitt comete adultério com um amigo da família (Liv Screiber, atualmente marido de Naomi). Ao descobrir a traição da mulher, Walter candidata-se como médico em um povoado remoto vítima de um surto de cólera e como vingança, faz com que ela o siga. A partir dessa viagem, as personagens vão aprendendo a conviver e superar as dificuldades humanas e pessoais.
As atuações são realmente viscerais e a dupla não se utiliza dos exageros de atuação corriqueiros nos dramas americanos nos para isso. Talvez por ser um tanto extenso, o filme se perde um pouco durante a narrativa, mas recupera o interesse do espectador e termina de maneira plena, embalado por uma canção francesa de umedecer (discretamente, claro) as retinas.
Dá até vergonha de entrar na sessão de “DESPERTAR DE UMA PAIXÃO”, mas que vale o ingresso, vale.