sábado, 14 de março de 2009

Atire a primeira pedra


Nelson Rodrigues só escrevia putaria? Em meados da proximidade do fim do ano passado, me peguei pensando nisso, depois de um balanço superficial da cena teatral baiana. Baseadas na sua obra e essência eram quatro em cartaz (aqui e aqui- esqueçamos que uma terceira existiu, por caridade. Tratarei da quarta aqui), num período próximo de tempo, cada uma com uma abordagem estética e dramática diferente, mas que remetiam ao mesmo universo- o da perversão sexual.
Conversando sobre o assunto com uma professora, ela me falou sobre a fama que cada um faz, a repercussão de determinadas obras e a fortuna crítica que vem como conseqüência disso. Nelson Rodrigues possui uma obra vastíssima, inclusive como cronista esportivo. Mas o que faz sucesso mesmo é o seu foco na dramaturgia e na obscuridade das relações humanas, que deixa a impressão de putão pervertido.
Atire a primeira pedra (que acabei não conseguindo ver na sua primeira exibição) volta em cartaz, aproveitando-se dessa famigerada aura do autor para contar várias histórias.
Baseada em A vida como ela é (que o Fantástico exibia quando a gente era pequeno e não podia ver porque só tinha...putaria), a montagem se divide em curtos capítulos independentes, entremeados por musicais que fazem uma auto-análise da história narrada, e quase sempre apelando para o pastelão, o que, pelo menos para mim, é o grande diferencial.
Dessa maneira, aparecem os casos clássicos da mulher adúltera, do cunhado pedófilo, do complexo de Édipo, e muitos outros centrados na mesquinhez humana.
Espirituoso. O destaque do espetáculo não está só na transposição das convencionais tragédias para a comédia que tanto agrada a platéia. Até mesmo porque o bom humor inicial vai se esvaindo a cada história, dando lugar à ironia e ao escárnio, num processo de amadurecimento até o seu término. As risadas ainda permanecem em grande quantidade, mas em vez de graça, o absurdo é que se faz risível.
Um enorme, responsável e afinado elenco dá conta dessa artimanha simples e bem estudada. É inteligente, é interessante. Ta recomendado.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Zodíaco


Um assassino em série é, possivelmente, um indivíduo portador de algum distúrbio mental, que pode matar inúmeras pessoas durante algum período indeterminado. Ele costuma estabelecer um padrão para as suas vítimas e a sua atuação é sempre motivo de medo e inconstância. Uma anomalia social, esse elemento suscita alguns estudos profundos que tentam desvendar questões simples como os fatores que causam o seu desenvolvimento. O Brasil tem os seus casos esporádicos. Mas curiosamente, os Estados Unidos é o local onde há mais recorrência desse fato, o que gera sempre mal-estar no meio público e a efusão dos meios de comunicação. Há quem diga que sejam as causas do progresso desenfreado que se esquece da humanização dos cidadãos, há quem afirme que seja elemento diretamente ligado ao fato da cultura norte-americana estar associada com a violência. A verdade é que a história do país é marcada por tragédias desse tipo, tornando figuras psicologicamente transtornadas em alvos de notoriedade, devido à anormalidade dos seus atos.
Alardeando o imaginário popular, o fenômeno começou a ser retratado nas expressões artísticas de maneira constante, chegando a virar balela cinematográfica nos fins dos anos 90, com a prolífica saga de terrores teens inaugurada por “Pânico” e seus asseclas.
Gênero adorado pela maioria, crucificado por alguns, que dotados de certo moralismo acusam a carnavalização da miséria e sofrimento alheios (com alguma razão, há de se convir), é apropriado lembrar que a arte se pauta na realidade para existir, construindo ou desconstruindo conceitos e teorias, pensamentos que circulam. Assim, os indivíduos vão concebendo o mundo, a si mesmo e os seus próprios discursos.
Discurso considerado como postura, sintoma, signo. Entende-se por signo qualquer representação possuidora de sentido, que contenha um significado. Letras, números, desenhos, símbolos. O zodíaco é um sistema de signos.
E foi assim, valendo-se de códigos e enigmas diversos, que um indivíduo o auto-intitulado Zodíaco, aterrorizou a população norte-americana na década de 70. É desse fato que a arte se reapropria, ao adaptar para o cinema a obra de Robert Graysmith, um sujeito que vivenciou o período de tal maneira, que foi capaz de imprimir os seus reflexos na literatura.
Como todo suspense policial, inicia-se com a apresentação de um dos muitos crimes. Dois jovens escapam das suas casas para um encontro escondido num local deserto. É óbvio que eles irão morrer. A narrativa, para continuar, precisa que a chacina ocorra. Mas é difícil não torcer pelo contrário, se incomodar com o fato das vítimas não saírem dali o mais rápido possível. Talvez por um senso retrógrado de humanidade do espectador, que se importa e se preocupa, mesmo com o inevitável. A dureza com que é mostrada a situação mostra imediatamente o grau da produção. Outro elemento a ser observado é a predominância de cores frias, dando sempre um tom seco, objetivo e pouco afável às seqüências, assim como a trilha sonora incidental, composta nos moldes setentistas, o que dá uma certa sensação nostálgica de desolamento.
Com roteiro e edição ágeis num primeiro momento, a problemática é apresentada: o assassino se pronuncia, enviando para os jornais uma carta juntamente com um conjunto de códigos e a exigência de ser publicado de imediato por eles, ameaçando cometer mais crimes, se contrariado. Para isso, David Fincher (por simpatia pela temática já cuidada em Seven) apóia-se num responsável elenco de figuras já conhecidas pelo carisma e experiência nas telas para narrar essa história.
Autoficcionalizado, Graysmith (Jake Gyllehaal) trabalha como cartunista de um dos jornais, que alia a sua paixão por enigmas à fixação ao ocorrido e ao medo de ver a sua família em perigo. Reproduzindo o clichê do bom rapaz, deixa-se tomar inteiramente pela sua investigação particular, o que o faz perder as referências afetivas. Mesmo terna, a sua relação com a esposa (Chloë Sevigny, musa contemporânea de filmes legais, pontuando a sua presença num papel propositalmente secundário) se mostra seca e pouco próxima, o que lhe custa algum sacrifício posteriormente. Se junta com o seu colega Paul Avery (Robert Downey Jr., sempre performático), um reconhecido jornalista interessado nos louros do sucesso e ao inspetor David Toschi (Mark Rufallo), um workhaholic pelas circunstâncias. Ao contrário de Robert, Avery e Toschi, são envolvidos por motivos profissionais. Mas é uma causa que vai tomando corpo e se tornando progressivamente pessoal.
O filme foge do esquemão crime-perseguição-crime. Isso é retratado sim, com bastante clareza e desenvoltura, causando os naturais e corriqueiros incômodos estimulados pelas cenas explícitas de assassinato. Dessa forma, o serial killer e as suas vítimas cruelmente abatidas não importam tanto quanto as relações de similitude criadas pelos protagonistas. Pela conveniência, eles se articulam e se desdobram a fim de resolver o mistério.
A atmosfera pesada e de suspense é mantida não apenas na crueza das seqüências de morte, mas principalmente nos jogos de busca, no cansaço mental a que as personagens são envolvidas.
O tempo é um elemento importante no filme. Atuando de maneira quase frenética, pontuando as passagens importantes, é interessante observar as relações de causa e efeito decorrentes. A degradação progressiva das personagens centrais, o frisson gerado na população. Numa das passagens mais dinâmicas, a metalinguagem transborda ao mostrar Toschi incomodado ao ver no cinema um suspense intitulado Scorpio, baseado nas suas investigações. Logo em seguida, Graysmith, dando continuidade à sua saga particular, conversa com Avery sobre a possibilidade de lançar um livro relacionado com a mesma temática, transpondo para a literatura as evidências por eles descobertas na investigação. Esse livro seria publicado, viraria best-seller e anos depois seria adaptado em Hollywood, com Jake Gyllenhaal encabeçando o elenco. Curioso e divertido ver como a ficção se representa nela própria.
A produção conta com uma reconstituição primorosa, que começa a empolgar desde os créditos que a Paramount usava na época e se mostra competente ao utilizar uma boa trilha sonora e um figurino apropriado pela sobriedade (se considerarmos a histeria da disco music naturalmente retratada como característica única do período). Utiliza-se também de efeitos especiais para mostrar as metrópoles norte-americanas em seus processos de expansão, mas ainda muito diferentes do que são hoje.
Inteligente e engenhoso, além de transbordar competência técnica, Zodíaco se mostra um interessante retrato sobre os limites humanos em frente ao caos gerado por uma mente obsessiva. Para isso, vale-se de um discurso intrincado, ágil e às vezes confuso. E se discurso é postura e é signo, nada mais adequado do que algo assim, cheio de significados, para tratar dos códigos sistemáticos do próprio e assustador Zodíaco.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Vicky Cristina Barcelona



Haja adjetivos para Vicky Cristina Barcelona. O cenário, as locações e a fotografia são um desbunde, assim como a trilha sonora é legal. O diretor Woody Allen, confirma o seu posto de ícone contemporâneo, contando uma história empolgante, divertida e bem articulada. E o elenco... Puta que pariu! A beleza, o talento e a suculência de nomes como Scarlett Johansson (mais uma vez com ele, para reafirmar o posto de nova musa), Penélope Cruz (maravilhosa), Javier Bardem (ótimo, mas acabadinho de rosto, convenhamos) e Rebecca Hall (ilustre e lindamente desconhecida. E haja parênteses.), são envolvidos numa narrativa que toca no cerne da alma feminina, revelando características comuns a esse elemento nas diversas e plurais personagens que se apresentam.
Contado como uma crônica que desvenda o cotidiano dos envolvidos pautando-se na decorrência dos fatos do presente, pouco se aprofundando no passado, somos apresentados à Vicky e Cristina, duas jovens turistas americanas passeando em Barcelona. Motivadas por diferentes condições, a jornada serve como instrumento de mudança para ambas, mesmo que não seja exatamente essa a motivação.
Vicky, que em breve irá se casar organiza os estudos e a auto-preparação para o desejado matrimônio, enquanto Cristina procura algo ou alguém que a faça mudar suas percepções, que a retire do marasmo e acabe com a sua insatisfação constante. Quase uma Ema Bovary contemporânea, sem drama, sem choro, sem marido e sem corpete.
Utilizando-se de uma didática e irônica narrativa em off (que pode incomodar e não se fazer entender pelos mais abobalhados), o filme acompanha a história das moças. É quando conhecem Juan Antonio (Bardem), um artista plástico sedutor e deveras sincero, que as enreda com seu charme.
É necessária uma aberviação para não deixar todo o enredo escapar, já que a graça da narrativa está justamente no seu desenrolar, na interação dos elementos pela high society espanhola.
Mas vale pontuar ainda a presença fulminante de Penélope Cruz, como Maria Elena, a ex-mulher, pintora e sociopata que se atrela ao conjunto, no ponto máximo do filme. Vale a pena.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Labirintos


Por mais cafona que soe chamar a Grécia de “Berço da civilização ocidental”, essa sempre parecerá mesmo a alcunha mais apropriada ao perceber-se o grau de influência desta nas culturas atuais (por mais que não pareça tanto assim). E não é à toa quando vemos algumas centenas de púberos espinhentos matando-se sobre os seus materiais didáticos, dispostos a aprender não só a cultura, mas as estruturas sociais, políticas, os mitos e as lendas- todas aquelas coisas dos deuses do Olimpo, etc, etc.
Curiosamente bem articuladas, divertidas e intrigantes, essas histórias gregas que serviam para ensinar valores e conter de alguma forma o pensamento e o comportamento do povo, são há milênios recontadas oral e literariamente.
Estudar uma estrutura social toda pautada em contos fantásticos e histórias maravilhosas é algo que aguça a imaginação de qualquer um. Dessa forma, é entendível o porquê que isso se reflete ainda hoje de maneira expressiva na arte.
Assim, o Vila Velha presenteia a cena baiana com Labirintos, uma adaptação áfrico-baianizada (ainda qe seja em menor escala do que as outras montagens de praxe da casa) do mito do Minotauro. E que cena!
A saga do herói Teseu (que não é loiro e luta capoeira) para honrar o seu pai e salvar o povo ateniense de uma dívida cruel com Creta é recontada de forma inovadora e empolgante.
Pressupondo-se que o público conhece a história, o espetáculo é guiado valorizando, sobretudo a estética. A grande surpresa é fazer o público passear pelas estruturas do teatro, aproveitando-se da sua arquitetura intricada para causar a sensação claustrofóbica do Labirinto. Na bilheteria mesmo a coisa começa.
No entanto, a intinerância desconcentra o público ainda pouco acostumado com inovações plásticas. Difícil também foi manter a concentração com a dúzia cada-vez-mais-prolífica de fotógrafos profissionais e suas câmaras histéricas, interessados em capturar cada segundo das belas sequências criadas pelo espetáculo.
Mas voltemos ao enredo. Teseu entra no labirinto, uma gigantesca prisão sem saída que abriga o Minotauro, besta metade humana, metade touro que periodicamente come jovens de Atena, destinados por uma dívida antiga. Apaixona-se por Ariadne, a louca (e suculenta) filha do rei rival. Tomada de amor, a moça, que esbanja sexualidade (assim como todas as outras figuras femininas do elenco) ensina-lhe um método engenhoso de como conseguir escapar da prisão. “Siga o fio”.
Paralelamente, é contada a história de Dédalo, o arquiteto arrependido, preso na sua própria criação e o seu filho Ícaro, um dos mais bonitos mitos gregos, a metáfora para o sonho, a inocência e a insensatez humana.
A narrativa segue marcando cenas importantes para situar o espectador na história. Algumas delas chegam a ser inacreditáveis, considerando-se o tamanho da beleza e da megalomania do projeto. Aliada a isso, uma iluminação responsável e uma trilha sonora envolvente, composta por batuques africanos e melodias européias. Apesar da encantadora boa-elaboração, o fim soa um tanto artificial e pouco convincente. Porém isso é algo perfeitamente compreensível, já que se fossem mesmo retratar toda a saga do Herói, terminariam gloriosamente a peça na Ladeira da Barra.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Dois dias em Paris


Multitalento. É assim que se pode definir o perfil de Julie Delpy. A sua já reconhecida carreira como atriz e cantora (num único cdzinho lindo que merece ser ouvido por todo mundo) é turbinada agora pelo peso da direção, produção, roteiro e mais uma vez atuação e trilha sonora de Dois dias em paris.
Carismática antes tudo, ela despontou jovem na França, sendo logo importada para os EUA, onde consolidou uma carreira cheia de altos e baixos. Em 95 encarnou Celine, formando um dos casais mais bonitos da história do cinema contemporâneo, juntamente com Ethan Hawke em Antes do Amanhecer, de Richard Linklater. Em 2004, o trio reencontrou-se na sequência, a qual Delpy e Hawke trabalharam também como co-roteiristas. A balada dos amantes que se reencontram deu tão certo que concorreu ao Oscar de melhor roteiro original (perdendo para Brilho eterno de uma mente sem lembranças) e a experiência foi provavelmente um dos pontos decisivos de estímulo para Julie se lançar na carreira (vale frisar que essa é a sua segunda experiência como diretora).
Lendo-se a sinopse de Dois dias em paris, a impressão que se tem é a de um desdobramento das parcerias com Linklater. Um casal de férias na Europa decide dar um pulo em Paris para que ele, americanófilo esquisito, conheça a família dela, francesa e liberal. A estadia conturbada é palco para diversas discussões de relacionamento e confrontos constantes entre eles.
No entanto, a semelhança pára no esqueleto do enredo. Os rumos da narrativa são diferentes e a forma de se fazer é outra, mais convencional. O humor sempre presente se aproveita das batidíssimas situações de conflito étnico entre franceses e estadunidenses, proliferando daí diversas piadas. Mas a falta de originalidade que pode incomodar no início, é trocada pela afeição e interesse do espectador pela envolvente e simplória história que guia a dupla, possuidora de uma sintonia interessante. Marion e Jack, que parecem estar sempre brigando, vão guiando a relação com uma sinceridade assustadora. Mas o que se descobre é que nem tudo é tão sincero assim.
Os ciúmes, a incapacidade de lidar com o passado do outro e a dificuldade com adaptação dos costumes são elementos colocados à prova, causando inúmeras situações cômicas e tocantes também. A experiência da encarregada faz-tudo transcende o eixo técnico da produção, provando que há bastante também das experiências humanas dela na essência do trabalho. Experiências essas que embora sejam comuns a todos os seres humanos em idade sexual ativa (você certamente identificar-se-á com a fala final da personagem no fim do filme) demonstram uma enorme capacidade de captação e transposição de sentimentos. Julie é sensibilidade pura.

p.s.: Daniel Bruhl, de Adeus Lênin e Edukators faz uma pontinha inspiradíssima. Só queria ressaltar mesmo.





terça-feira, 15 de julho de 2008

Hair


“Quando a lua estiver na 17ª casa
E Júpiter se alinhar com Marte
Então a paz guiará os planetas
E o amor comandará as estrelas
Esse é o amanhecer da era de Aquário
A era de Aquário
Aquário!
Aquariooooo!”

O clamor pelo desapego e pelo amor livre eternizado nas canções fazem de Hair um documento valioso à respeito do movimento hippie, por se tratar de uma obra feita no mesmo período de toda a coisa.
A primeira vez que assisti ao musical, estava na terceira série, antes de uma festança de fim de ano promovida pela escola. Professora prendendo na sala crianças em polvorosa. Resultados catastróficos na hora da apreciação. Sem falar do peso que faz a falta de maturidade aos 9 anos de idade.
Mas o tempo resolve tudo. Me permiti revisitar o clássico e depois de tanto tempo foi alegrante mudar de opinião. Hair é uma graça.
Essencial no cânone de qualquer haribô contemporâneo, o filme conta a história de um grupo de hippies que influencia com seus valores de paz e liberdade um rapaz pacato do interior, que visita a metrópole à caminho do exército, prestes a viajar para lutar na guerra do Vietnã.
Propaganda convicta anti-belicista, é curioso ver algo pertencente ao próprio sistema (lembremos se tratar de um produto da indústria cinematográfica americana), polemizar tantos elementos.
O grande trunfo do filme é apresentar personagens heterogêneas, redondas e até mesmo algumas possuidoras de falhas de caráter. No grupo, figuram as “escórias da sociedade”- a mulher grávida e solteira, despreocupada com a paternidade da criança; o negro Black power, que mais tarde revelar-se-á como um abandonador de lar; o gay (que embora negue em determinado momento na sua fala, mantém todas as ferramentas- sem querer aqui fazer qualquer tipo de piadinha), entre outros. Curioso é notar que o líder do grupo é um macho, branco e forte. E que num grupo que presa pela liberdade e igualdade, haja alguém definindo as regras e os rumos, que desempenhe o papel do “esperto”, o condutor. Seriam as alfinetadas do próprio sistema?
Seguindo uma linearidade de fatos, o rapaz apaixona-se por uma moça aristocrata, os hippies ajudam-no a conhecê-la, até que os seus dias de liberdade chegam ao fim e ele finalmente entra para o exército, cedendo às pressões sociais. Mas a história ainda continua, quando eles decidem reencontrá-lo no acampamento das forças armadas.
Claro que tudo isso regado por muitas, muitas musiquinhas alegres (algumas cansativas, ok) e inúmeras Coreôs no melhor estilo Haribô-70. A alma de toda uma década lá, retratada ainda por todo exagero do figurino- e os maravilhosos cabelos, claro. Grande foi a minha surpresa ao ver uma das melhores canções de Nina Simone (se não, A Melhor- Ain’t Got No/I Got Life), sampleada e adaptada ao enredo, sendo cantada por mais de uma vez. Brilhante e divertido.
A era de Aquário, pelo visto, não deu as caras. E sabe deus por onde andam hoje as ideologias de toda uma geração. Mas rever Hair traz um pouco de frescor e leveza à forma de como encarar as coisas. Vale a pena, ta no balaio das Americanas.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Hors de prix


É reconfortante ver um bom retorno às origens. É bom ver Audrey Tautou afirmar a sua ligação com o cinema francês depois da sua aventurinha americana com Tom Hanks escovadinho em O Código daVinci. É tranqüilizante uma coisa dessa.
Ainda que seja numa produção levinha e despretensiosa, é boa a sensação de ver alguém não se perder na indústria do entretenimento por puro dinheiro. E por mais descompromissada que seja, o passatempo é garantido.
Abordando o curioso e deveras explorado universo dos trambiqueiros e golpistas, o filme narra a história de um garçom (Gad Elmaleh, feinho) que engana uma mulher interesseira (Audrey miudinha, magrelinha, fazendo a gostosona- mas com muito potencial) ao ser confundido por ela com um homem bem sucedido em férias no hotel.
Bombasticamente assustador pelo clichê inicial do enredo, é alegrante ver a história se desenrolar vertiginosamente, fugindo dos lugares-comuns das comédias românticas-de-capa-cor-de-rosa: logo a verdade entre eles é descoberta, passam por situações sofríveis e logo formam uma cooperativa de apoio mútuo.
A simplicidade do filme impede uma divagação muito grande ao seu respeito, voltando ao velho “se contar, estraga”. A dupla possui uma sintonia interessante e os momentos de riso- sua proposta principal- são constantes. Horroroso mesmo é o título nacional, incrivelmente cafona ("Amar... não tem preço"). Mas meter o pau nisso é uma prática famigerada que não adianta nada. Só alimenta a raiva.
Bom mesmo é ver a simplicidade arrebatadora de Tautou que desde 2001 carrega o glorioso estigma de Amelie Poulain (impossível dissociar o nome à obra), adquirindo um batalhão de admiradores do seu competente trabalho. Juntando o útil ao agradável, Hors de Prix dá uma super conta do recado.