terça-feira, 11 de novembro de 2008

Zodíaco


Um assassino em série é, possivelmente, um indivíduo portador de algum distúrbio mental, que pode matar inúmeras pessoas durante algum período indeterminado. Ele costuma estabelecer um padrão para as suas vítimas e a sua atuação é sempre motivo de medo e inconstância. Uma anomalia social, esse elemento suscita alguns estudos profundos que tentam desvendar questões simples como os fatores que causam o seu desenvolvimento. O Brasil tem os seus casos esporádicos. Mas curiosamente, os Estados Unidos é o local onde há mais recorrência desse fato, o que gera sempre mal-estar no meio público e a efusão dos meios de comunicação. Há quem diga que sejam as causas do progresso desenfreado que se esquece da humanização dos cidadãos, há quem afirme que seja elemento diretamente ligado ao fato da cultura norte-americana estar associada com a violência. A verdade é que a história do país é marcada por tragédias desse tipo, tornando figuras psicologicamente transtornadas em alvos de notoriedade, devido à anormalidade dos seus atos.
Alardeando o imaginário popular, o fenômeno começou a ser retratado nas expressões artísticas de maneira constante, chegando a virar balela cinematográfica nos fins dos anos 90, com a prolífica saga de terrores teens inaugurada por “Pânico” e seus asseclas.
Gênero adorado pela maioria, crucificado por alguns, que dotados de certo moralismo acusam a carnavalização da miséria e sofrimento alheios (com alguma razão, há de se convir), é apropriado lembrar que a arte se pauta na realidade para existir, construindo ou desconstruindo conceitos e teorias, pensamentos que circulam. Assim, os indivíduos vão concebendo o mundo, a si mesmo e os seus próprios discursos.
Discurso considerado como postura, sintoma, signo. Entende-se por signo qualquer representação possuidora de sentido, que contenha um significado. Letras, números, desenhos, símbolos. O zodíaco é um sistema de signos.
E foi assim, valendo-se de códigos e enigmas diversos, que um indivíduo o auto-intitulado Zodíaco, aterrorizou a população norte-americana na década de 70. É desse fato que a arte se reapropria, ao adaptar para o cinema a obra de Robert Graysmith, um sujeito que vivenciou o período de tal maneira, que foi capaz de imprimir os seus reflexos na literatura.
Como todo suspense policial, inicia-se com a apresentação de um dos muitos crimes. Dois jovens escapam das suas casas para um encontro escondido num local deserto. É óbvio que eles irão morrer. A narrativa, para continuar, precisa que a chacina ocorra. Mas é difícil não torcer pelo contrário, se incomodar com o fato das vítimas não saírem dali o mais rápido possível. Talvez por um senso retrógrado de humanidade do espectador, que se importa e se preocupa, mesmo com o inevitável. A dureza com que é mostrada a situação mostra imediatamente o grau da produção. Outro elemento a ser observado é a predominância de cores frias, dando sempre um tom seco, objetivo e pouco afável às seqüências, assim como a trilha sonora incidental, composta nos moldes setentistas, o que dá uma certa sensação nostálgica de desolamento.
Com roteiro e edição ágeis num primeiro momento, a problemática é apresentada: o assassino se pronuncia, enviando para os jornais uma carta juntamente com um conjunto de códigos e a exigência de ser publicado de imediato por eles, ameaçando cometer mais crimes, se contrariado. Para isso, David Fincher (por simpatia pela temática já cuidada em Seven) apóia-se num responsável elenco de figuras já conhecidas pelo carisma e experiência nas telas para narrar essa história.
Autoficcionalizado, Graysmith (Jake Gyllehaal) trabalha como cartunista de um dos jornais, que alia a sua paixão por enigmas à fixação ao ocorrido e ao medo de ver a sua família em perigo. Reproduzindo o clichê do bom rapaz, deixa-se tomar inteiramente pela sua investigação particular, o que o faz perder as referências afetivas. Mesmo terna, a sua relação com a esposa (Chloë Sevigny, musa contemporânea de filmes legais, pontuando a sua presença num papel propositalmente secundário) se mostra seca e pouco próxima, o que lhe custa algum sacrifício posteriormente. Se junta com o seu colega Paul Avery (Robert Downey Jr., sempre performático), um reconhecido jornalista interessado nos louros do sucesso e ao inspetor David Toschi (Mark Rufallo), um workhaholic pelas circunstâncias. Ao contrário de Robert, Avery e Toschi, são envolvidos por motivos profissionais. Mas é uma causa que vai tomando corpo e se tornando progressivamente pessoal.
O filme foge do esquemão crime-perseguição-crime. Isso é retratado sim, com bastante clareza e desenvoltura, causando os naturais e corriqueiros incômodos estimulados pelas cenas explícitas de assassinato. Dessa forma, o serial killer e as suas vítimas cruelmente abatidas não importam tanto quanto as relações de similitude criadas pelos protagonistas. Pela conveniência, eles se articulam e se desdobram a fim de resolver o mistério.
A atmosfera pesada e de suspense é mantida não apenas na crueza das seqüências de morte, mas principalmente nos jogos de busca, no cansaço mental a que as personagens são envolvidas.
O tempo é um elemento importante no filme. Atuando de maneira quase frenética, pontuando as passagens importantes, é interessante observar as relações de causa e efeito decorrentes. A degradação progressiva das personagens centrais, o frisson gerado na população. Numa das passagens mais dinâmicas, a metalinguagem transborda ao mostrar Toschi incomodado ao ver no cinema um suspense intitulado Scorpio, baseado nas suas investigações. Logo em seguida, Graysmith, dando continuidade à sua saga particular, conversa com Avery sobre a possibilidade de lançar um livro relacionado com a mesma temática, transpondo para a literatura as evidências por eles descobertas na investigação. Esse livro seria publicado, viraria best-seller e anos depois seria adaptado em Hollywood, com Jake Gyllenhaal encabeçando o elenco. Curioso e divertido ver como a ficção se representa nela própria.
A produção conta com uma reconstituição primorosa, que começa a empolgar desde os créditos que a Paramount usava na época e se mostra competente ao utilizar uma boa trilha sonora e um figurino apropriado pela sobriedade (se considerarmos a histeria da disco music naturalmente retratada como característica única do período). Utiliza-se também de efeitos especiais para mostrar as metrópoles norte-americanas em seus processos de expansão, mas ainda muito diferentes do que são hoje.
Inteligente e engenhoso, além de transbordar competência técnica, Zodíaco se mostra um interessante retrato sobre os limites humanos em frente ao caos gerado por uma mente obsessiva. Para isso, vale-se de um discurso intrincado, ágil e às vezes confuso. E se discurso é postura e é signo, nada mais adequado do que algo assim, cheio de significados, para tratar dos códigos sistemáticos do próprio e assustador Zodíaco.

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