sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Labirintos


Por mais cafona que soe chamar a Grécia de “Berço da civilização ocidental”, essa sempre parecerá mesmo a alcunha mais apropriada ao perceber-se o grau de influência desta nas culturas atuais (por mais que não pareça tanto assim). E não é à toa quando vemos algumas centenas de púberos espinhentos matando-se sobre os seus materiais didáticos, dispostos a aprender não só a cultura, mas as estruturas sociais, políticas, os mitos e as lendas- todas aquelas coisas dos deuses do Olimpo, etc, etc.
Curiosamente bem articuladas, divertidas e intrigantes, essas histórias gregas que serviam para ensinar valores e conter de alguma forma o pensamento e o comportamento do povo, são há milênios recontadas oral e literariamente.
Estudar uma estrutura social toda pautada em contos fantásticos e histórias maravilhosas é algo que aguça a imaginação de qualquer um. Dessa forma, é entendível o porquê que isso se reflete ainda hoje de maneira expressiva na arte.
Assim, o Vila Velha presenteia a cena baiana com Labirintos, uma adaptação áfrico-baianizada (ainda qe seja em menor escala do que as outras montagens de praxe da casa) do mito do Minotauro. E que cena!
A saga do herói Teseu (que não é loiro e luta capoeira) para honrar o seu pai e salvar o povo ateniense de uma dívida cruel com Creta é recontada de forma inovadora e empolgante.
Pressupondo-se que o público conhece a história, o espetáculo é guiado valorizando, sobretudo a estética. A grande surpresa é fazer o público passear pelas estruturas do teatro, aproveitando-se da sua arquitetura intricada para causar a sensação claustrofóbica do Labirinto. Na bilheteria mesmo a coisa começa.
No entanto, a intinerância desconcentra o público ainda pouco acostumado com inovações plásticas. Difícil também foi manter a concentração com a dúzia cada-vez-mais-prolífica de fotógrafos profissionais e suas câmaras histéricas, interessados em capturar cada segundo das belas sequências criadas pelo espetáculo.
Mas voltemos ao enredo. Teseu entra no labirinto, uma gigantesca prisão sem saída que abriga o Minotauro, besta metade humana, metade touro que periodicamente come jovens de Atena, destinados por uma dívida antiga. Apaixona-se por Ariadne, a louca (e suculenta) filha do rei rival. Tomada de amor, a moça, que esbanja sexualidade (assim como todas as outras figuras femininas do elenco) ensina-lhe um método engenhoso de como conseguir escapar da prisão. “Siga o fio”.
Paralelamente, é contada a história de Dédalo, o arquiteto arrependido, preso na sua própria criação e o seu filho Ícaro, um dos mais bonitos mitos gregos, a metáfora para o sonho, a inocência e a insensatez humana.
A narrativa segue marcando cenas importantes para situar o espectador na história. Algumas delas chegam a ser inacreditáveis, considerando-se o tamanho da beleza e da megalomania do projeto. Aliada a isso, uma iluminação responsável e uma trilha sonora envolvente, composta por batuques africanos e melodias européias. Apesar da encantadora boa-elaboração, o fim soa um tanto artificial e pouco convincente. Porém isso é algo perfeitamente compreensível, já que se fossem mesmo retratar toda a saga do Herói, terminariam gloriosamente a peça na Ladeira da Barra.