quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Dois dias em Paris


Multitalento. É assim que se pode definir o perfil de Julie Delpy. A sua já reconhecida carreira como atriz e cantora (num único cdzinho lindo que merece ser ouvido por todo mundo) é turbinada agora pelo peso da direção, produção, roteiro e mais uma vez atuação e trilha sonora de Dois dias em paris.
Carismática antes tudo, ela despontou jovem na França, sendo logo importada para os EUA, onde consolidou uma carreira cheia de altos e baixos. Em 95 encarnou Celine, formando um dos casais mais bonitos da história do cinema contemporâneo, juntamente com Ethan Hawke em Antes do Amanhecer, de Richard Linklater. Em 2004, o trio reencontrou-se na sequência, a qual Delpy e Hawke trabalharam também como co-roteiristas. A balada dos amantes que se reencontram deu tão certo que concorreu ao Oscar de melhor roteiro original (perdendo para Brilho eterno de uma mente sem lembranças) e a experiência foi provavelmente um dos pontos decisivos de estímulo para Julie se lançar na carreira (vale frisar que essa é a sua segunda experiência como diretora).
Lendo-se a sinopse de Dois dias em paris, a impressão que se tem é a de um desdobramento das parcerias com Linklater. Um casal de férias na Europa decide dar um pulo em Paris para que ele, americanófilo esquisito, conheça a família dela, francesa e liberal. A estadia conturbada é palco para diversas discussões de relacionamento e confrontos constantes entre eles.
No entanto, a semelhança pára no esqueleto do enredo. Os rumos da narrativa são diferentes e a forma de se fazer é outra, mais convencional. O humor sempre presente se aproveita das batidíssimas situações de conflito étnico entre franceses e estadunidenses, proliferando daí diversas piadas. Mas a falta de originalidade que pode incomodar no início, é trocada pela afeição e interesse do espectador pela envolvente e simplória história que guia a dupla, possuidora de uma sintonia interessante. Marion e Jack, que parecem estar sempre brigando, vão guiando a relação com uma sinceridade assustadora. Mas o que se descobre é que nem tudo é tão sincero assim.
Os ciúmes, a incapacidade de lidar com o passado do outro e a dificuldade com adaptação dos costumes são elementos colocados à prova, causando inúmeras situações cômicas e tocantes também. A experiência da encarregada faz-tudo transcende o eixo técnico da produção, provando que há bastante também das experiências humanas dela na essência do trabalho. Experiências essas que embora sejam comuns a todos os seres humanos em idade sexual ativa (você certamente identificar-se-á com a fala final da personagem no fim do filme) demonstram uma enorme capacidade de captação e transposição de sentimentos. Julie é sensibilidade pura.

p.s.: Daniel Bruhl, de Adeus Lênin e Edukators faz uma pontinha inspiradíssima. Só queria ressaltar mesmo.





1 Comentários:

Blogger Gerana Damulakis disse...

Excelente o texto.

22 de agosto de 2008 18:08  

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