terça-feira, 13 de maio de 2008

Batata


A Batata precisa ser digerida, para ser compreendida. O processo de digestão depende de quem a come, claro. Há quem consiga digerir cada pedaço, simultaneamente à sua digestão. Há quem precise de um tempo, para que a ficha caia, e as coisas comecem a fazer sentido, como o meu caso. Há quem não goste do gosto. Esse não digerirá nunca.
Assim é o mais recente espetáculo do Dimenti (que já saiu de cartaz há algumas semanas, mas só agora consigo dar o meu parecer).
Baseando-se na essência da obra de Nelson Rodrigues, os escritores Adelice Souza, Cláudia Barral, Elísio Lopes Jr., Fábio Rios, Kátia Borges e Paula Lice (que integra o grupo e assume duas vezes o comando de autora) foram recrutados para a criação de pequenos monólogos inspirados na atmosfera peculiar do dramaturgo. A proposta é abordar idéia de confissão. Cada um ao seu jeito, ao seu modo. Alguns bons, alguns chatos mesmo.
Dessa forma, é natural que os maiores tabus da sociedade surjam para abordagem: perversões sexuais, incesto, homossexualidade velada, assassinato, intriga, preconceito étnico, vício.
Batata contraria a “normal” e esperada maneira de organização de uma montagem composta por várias histórias diferentes. E é aí que a digestão acontece de diferente forma para cada um. Os atores se revezam (ou não) no palco, encarregados de uma história em particular, em meio a uma aparente desorganização, que confunde mesmo o espectador mais desavisado.
Surpreendendo os olhos dos velhos apreciadores familiarizados com a estética do grupo, a montagem inova por apelar menos para o humor, uma das características obrigatórias do Dimenti, priorizando o drama natural dos textos e a morbidez da aura que Rodrigues, de certa forma construiu. Oportunidade excelente dos atores de exercitarem outra vertente dos seus trabalhos. Necessário também citar a excelente sacada dos créditos iniciais mostrados no início da peça, em meio a uma tocante música ao vivo.
Mas nem tudo consegue ser decifrado. Há uma série de signos e metáforas que funcionam contextualizados na peça, como os copos plásticos e os band-aids nos rostos deles - talvez uma extrapolação extrapolada e deveras abstrata dê conta de tentar explicar. E talvez não queiram mesmo dizer absolutamente nada, seja pura brincadeira do diretor com o seu elenco, como forma de provocar o público e analistas mais exaltados. Afinal, quem falou que no teatro contemporâneo as coisas precisam fazer sentido?

1 Comentários:

Anonymous Gerana disse...

Vc está escrevendo cada vez melhor. Ótimo texto!

2 de julho de 2008 17:04  

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