quinta-feira, 17 de abril de 2008

XXY

“Sabe o que é bom de ouvir música na rua? É que parece que todo mundo está ouvindo junto com você.”
Seria inesperado de ouvir uma frase singela dessa num filme de tema tão delicado como XXY. E de fato, é. Falar da condição do hermafrodita hoje é uma tarefa complicada, que requer alguns cuidados. Mas há uma suavidade ao retratar toda densidade requerida para ele. É um drama, sim. Mas há delicadeza.
É realmente difícil encontrar um roteiro bem construído hoje. Vêem-se muitas problemáticas fáceis, muitas soluções manjadas e o pior: reviravoltas que não reviram nada. Quando se fala em cinema sobre a diversidade sexual (o normalmente- e discutivelmente- chamado de Cinema Gay), a situação é ainda mais complicada, já que a maioria das obras normalmente apela para o lugar-comum do dramão da aceitação. O filme em questão vai de encontro a tudo isso.
Cinema Latino-Americano da melhor qualidade, XXY (referência aos cromossomos masculinos e femininos, que determinam o sexo do indivíduo- o resenhista é leigo no assunto e já esqueceu da biologia escolar, perdoem-no a insuficiência da qualidade da informação) surpreende pela riqueza da substância. A história é linear e a fotografia simplória, o que empolga mesmo são as surpresas do roteiro.
Pais de uma criança hermafrodita decidem que ela cresça, para que possa fazer a sua própria escolha na maturidade, livrando-a assim do trauma da cirurgia de “normalização”. Porém, vão condicionando esse ser a uma escolha específica, em meio a uma comunidade atrasada e longínqua no Uruguai. A hospedagem de uma outra família no seio familiar deste ser altera a ordem e o rumo das coisas.
O curioso é que a história brinca com inúmeras pistas falsas, suscitando no espectador inúmeras indagações e julgamentos equivocados. Assim, o ritmo não se perde. As revelações e descobertas vão sendo feitas no seu decorrer.
Ricardo Darín, ator argentino que ganhou destaque aqui pela sua filmografia leve e majoritariamente romântica, se sai muito bem variando de abordagem e esquecendo do seu estigma de gostosão latino (o que nunca foi verdade), encabeçando um elenco forte e de atuações viscerais. E não há como não citar a intensidade da desconhecida Inés Efron, que brilha de maneira única.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Adaptação



É foda. Não dá para manter o nível na hora de falar sobre Adaptação: a porra do filme é uma das coisas mais legais que os EUA produziram nos últimos anos.
Também, não dá para se esperar menos de um quadro tão incrível de envolvidos: Nicolas Cage e Meryl Streep (!!) prota e antagonizando, pontinhas de Maggie Gyllenhaal, Tilda Swinton e Catherine Keener (que apenas sorri- hilária), Spike Jonze na direção (de Quero ser John Malkovich) e roteiro de Charlie Kaufman- a mente pop mais brilhante do cinema de lá (corram para as locadoras: ele também escreveu Quero ser John Malkovich, Brilho eterno de uma mente sem lembranças, A Natureza quase humana e Confissões de uma mente perigosa).
Adaptação é uma explosão metalingüística das mais empolgantes. No filme, o próprio Charlie se coloca como protagonista (o que soa deveras egocêntrico, numa análise menos passional), atormentado por um dilema: o que escrever quando se é visto como um roteirista brilhante e original? O que fazer depois que todo mundo cultua a sua obra anterior?
Sexualmente frustrado, em constantes conflitos com o seu irmão gêmeo (Cages-Kaufmans-Cages. A essa altura o espectador já não tem muita noção do que pode ser ficção, ou realidade) e encarregado de adaptar o best-seller de Susan, uma jornalista famosa, o filme narra o quão doloroso pode ser esse processo, valendo-se da linguagem para dar constantes alfinetadas na própria indústria cinematográfica. Paralelo a isso, vê-se a própria história da construção do livro de Susan, e o seu tórrido envolvimento com o grosseiro John Laroche, um amoral contrabandista de flores.
Entender-lhe-ei, leitor, se não tiver entendido nada dessa efusiva resenha até agora. Mas não me julgue (nem pelo nível de abstração, nem pela mesóclise. Adoro! :D). Consulte outro alguém que tenha assistido ao filme e note o quanto é difícil para ele definir a sinopse de Adaptação. Mesmo que tenha odiado.
É uma intensa profusão de quebra de barreiras pré-determinadas. Uma prova de que não há limites para o roteiro e personagens. A abstração, a “loucura” é a sua graça maior.
Porém, isso não quer dizer que seja um filme difícil e denso (talvez). O humor é a sua chave, que perto do fim, adota para si algumas características e clichês do cinemão norte-americano. Uma brincadeira do próprio Kaufman com a sua classe. Ainda há, pra terminar o deleite, uma trilha sonora super fofa (Happy Together- The Turtles). É assistir pra confirmar. Vale a pena, caralho!