sábado, 15 de março de 2008

De Madrugada

Quando a madrugada chega, as opções de entretenimento soteropolitano vão se extinguindo. É um show que acaba, é um bar que fecha, é outro bar que fecha... Até o completo nada. No verão, as coisas costumam ser esticadas, em virtude da quantidade maciça de turistas-com-a-cara-aberta encantados com a hospitalidade sexual baiana. Mas isso é fato e todo mundo já cansou de discutir.
O drama começa é quando se mora longe e está cansado de passar a noite num cantinho gentilmente cedido pelo amigo gente-boa que o acompanha. Saciada a sede por cultura e/ou entretenimento, o jeito é assumir a responsabilidade do ato, meter as caras e voltar fatigado pra casa, cortando a noite escura.
É nesse contexto que surge o transporte clandestino. Numa besta, topic, kombi, towner ou qualquer outro carro de médio porte, volto espremidinho para casa juntamente com os trabalhadores da madrugada, cansados das duras jornadas, claro que sempre entregues à pressa desesperada do motorista e à ignorância peculiar e talvez necessária do cobrador-segurança.
Quando se mora mais longe ainda, é necessário tomar dois desses transportes. E se o primeiro é obscuro, o segundo é mais ainda.
Mas é necessária uma explicação geográfica da área a ser tratada:
Itapuã está localizado em uma das pontas de Salvador, chega a ter um farol de merecimento. É uma zona tão grande, que possui diversas sub-áreas. Algumas são muito phynnas, como a região do próprio farol, a Praia do Flamengo e a maior parte de Piatã. Outras, nem tanto, como a Nova Brasília, o Abaeté (e suas milhões de sub-sub-zonas criativamente batizadas), o Km 17 e o famoso Alto do Coqueirinho, a localidade em questão.
Ponto forte no tráfico de entorpecentes ilícitos, não é dos lugares mais tranqüilos de se morar. A coisa fica mais gritante ainda quando se descobre que há uma ligação direta com o Bairro da Paz (a materialização de uma das mais famosas figuras de linguagem que a gramática já normatizou- a ironia), e que vez ou outra um corpinho furado à bala, cortado a facão, ou chamuscadinho de fogo, aparece por essa banda. Por isso é importante garantir a segurança e pegar o segundo transporte.
Largado no portal do bairro, no meio das ratazanas que passeiam sorrateiramente, tem de se dirigir ao “terminal” dos “carrinhos” e solicitar o serviço. Serviço esse que só sai quando mais três ou quatro andantes noturnos aparecem requisitando o mesmo, já que ninguém vai se desprender para fazer o percurso pelo meu mísero 1,50 R$.
Mas nessa noite não era necessário. Nessa noite ela estava lá. A madrugada era dela. Ao orelhão, berrava, ironicamente. “Poooooooode voltar, sem póblemas, volte pra ela, volte pra cuidar da sua exxxpoooosa, vá. Sem póblêmas. Eu chego cansada do trabalho, uma hora dessa e você não está aqui?”
Ele tinha saído do ponto para fazer um outro serviço qualquer. Chegou. Esperou para que a levasse em casa, depois de dar umazinha, mas o seu macho, o seu corpo viril, não apareceu. Contou as suas amarguras para um colega qualquer, que também dava conta do expediente. Mas ela só o queria. A sua satisfação dependia dele.
O henê envelhecido no cabelo pueril era disfarçado pelo boné branco da Puma. A blusinha de elanca, deixando que as abas do abdome fossem discretamente exibidas, compunha o visual. Mas marcante mesmo era a calcinha vermelha, indecorosamente cavada, sensualmente enviesada, indefinindo as fronteiras entre as costas e o ânus. Sensual sem ser vulgar.
Até que o Uno Branco surgiu pelas ruas desertas. Barulhento e enferrujado, sendo guiado por mãos firmes, adúlteras, que exalavam feromônios. Encurvada ao lado do automóvel, prosseguiu no seu discurso de fêmea magoada e independente. Que fosse embora, que não haveria póblêma. Era um joguete sexual. E eu fui inserido no meio do fogo cruzado.
O caminho era curto. Mas suficiente para uma D.R sem fim. Ela morava no Km 17, eu ia para o Coqueirinho. Caminhos opostos. Ele não estava a fim, queria deixá-la antes, para depois me levar. E foi aí que a coisa começou.
“Não. Você vai levar o menino antes”. “Ráááá se você me deixar lá primeiro eu NÃO SAIO DO CARRO”.
Enquanto a máquina, que sequer possuía meios para manter a sua porta fechada, seguia rangendo uma profusão de sons. Às vezes o vento batia no plástico que servia de proteção para o vidro traseiro, levado embora em alguma provável batida ou confusão, tendo em vista o temperamento forte dos agregados.
O constrangimento era absurdo. Cansado, sozinho, presenciando uma discussão carregada de erotismo -sim, o plano dela era a reconciliação seguida da feitura do ato sexual intenso e proibido, ali dentro mesmo. Era notável.
Ele a entendeu, mas continuou estimulando o joguinho. Dizia que não ia fazer aquilo não, que o caminho correto era o dele. A coisa ficava cada vez mais insuportável, mais alheiamente vergonhosa, mais opressora para a pobre alma que nada tinha a ver com a situação. E eu só imaginava a pobre da esposa pagando de corna em pleno sono R.E.M. Até que chegou no meu ponto, paguei, desci e gentilmente ofereci uma boa noite, que sequer foi retribuído. Mas ah, eu havia chegado em casa. E os minutos que haviam se passado entraram pro top 10 dos 5 minutos mais constrangedores da minha vida.

7 Comentários:

Blogger .F Marques disse...

acho que foi a melhor coisa que eu já vi você escrever. Uma irônia que acompanhou o tom da situação, eu criei uma imagem meio cinza de madrugada, inicio de dia fim de noite... parabéns

15 de março de 2008 14:47  
Blogger Jarbas disse...

nossa! muito bom...
adorei o texto .

17 de março de 2008 05:42  
Blogger Fabrício Salim disse...

corajosa exposição.

17 de março de 2008 10:49  
Blogger Eliana Mara disse...

Pedro, primeira visita. Gostei do texto e estou revistando a casa.
Volto logo mais,

abraços.

19 de março de 2008 18:34  
Anonymous Duver disse...

gostei da "materialização da figura de linguagem"!!
;)

21 de março de 2008 16:26  
Blogger Helder Thiago Maia disse...

parabéns! é o seu melhor texto!
:D

28 de março de 2008 14:15  
Blogger Alessandra disse...

é a primeira vez que passo por aqui... nossa! que texto delicioso... adorei!

3 de abril de 2008 21:29  

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