domingo, 24 de fevereiro de 2008

Juno

Lembra de Nazaré Tedesco e Laura Prudente da Costa? Duas super vilãs que marcaram a dramaturgia brasileira contemporânea. Depois do sucesso delas em suas respectivas novelas, virou uma necessidade febril entre os autores criarem personagens malévolas e implacáveis, mas que ganhassem a simpatia imediata do público. Essa precisão de acertar na fórmula, acaba péssimo, pois o modelo se repete e se desgasta com cada vez mais insistência, torrando a paciência dos menos tolerantes.
O fenômeno se repete na ala da 7a. arte também. Em 2007 a comunidade cinematográfica vibrou com as diversas indicações do oscar para Pequena Miss Sunshine. Um filme pequeno, independente, carismático, cheio de críticas sociais e comportamentais, boas atuações e um certo apelo sentimental. Foi a “Zebra” mais famosa do Oscar. Eis que em 2008 a situação se repete, com todas as atenções se voltando para Juno. O que é inconcebível.
É um filme bom. E lá pelos 20 minutos finais se torna incrivelmente fofinho. Mas é um equívoco considerá-lo excelente a ponto de receber algum prêmio de tanta repercusão.
A história da adolescente grávida à procura de uma solução para o seu problema é interessante, mas se perde na insistente tentativa de referenciar a cultura pop alternativa. Citações de músicas e filmes legais, marcas famosas, objetos emblemáticos e personagens bizarros parecem apenas vazios quando não são bem conduzidos. Mas mais cansativos ainda são os diálogos artificialmente nonsenses que transbordam a narrativa:

“Oi, eu estou ligando atrás de um aborto imediato... Pode esperar um pouco? Estou no meu telefone de hambúrguer!... Agora sim.”

“Quer uma camisinha grátis? São de Amora.”
“Não, não estou fazendo sexo.”
“Meu namorado as usa todas vezes que transamos. A pica dele fica cheirando à torta.”

É fraco. Muito fraco. Mas completamente possível compreender o porquê da sua completa aceitação pelo público. É a febre cool!
Assim como a Miss Sunshine, o universo de Juno é desequilibrado. Como toda boa garota-problema, ela toma remédios controlados, seus pais são separados, vive no opressor mundo da high-school, seu objeto de desejo é um nerd visivelmente anormal. Uma crítica bem comum ao American Way of Life, onde tudo parece estar lindamente no lugar, ruindo desgraçadamente por dentro.
Apesar disso, e da voz rasgadinha-enlouquecedora de Ellen Page (indicada como melhor atriz, mas assemelhando-se à uma comediante de Talk Show americano, pelos excessos), a produção conta com muitos pontos positivos. O roteiro não segue a linha de previsibilidade tão comum por aí, e nem todas a piadas são ruins. Jennifer Garner (horrorosa) aparece muito bem como a candidata pela adoção do bebê e protagoniza o melhor momento, a cena do encontro no shopping, bonita e sensível. A apresentação dos créditos é criativa e bem feita, e a trilha sonora é muito bem articulada(apesar de não ser das mais interessantes, já que exagera no country, ou folk. Funciona no filme, mas é meio chato pra se ouvir depois). Como já citado, Juno vai ganhando contornos mais simpáticos e consegue arrancar do espectador um sorrisinho de entretenimento alcançado. Mas daí a considerar bom a ponto de figurar entre os melhores do ano, é um exagero absurdo.
Que venham as porradas!

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

O Escafandro e a Borboleta


Acho incrível quando um filme estrangeiro é indicado para uma categoria comum do Oscar. Não que o Oscar seja importante assim (mas assumo que adoro), mas é ver uma produção de outra nacionalidade ganhar notoriedade suficiente para figurar entre os concorrentes a um prêmio estritamente americano. O caso de O escafandro e a Borboleta é esse.
Baseado na obra homônima de Jean Dominique Bauby, a cinebiografia conta o processo do próprio Jean (editor da revista Elle, até então) de auto-aceitação e superação, depois de sofrer um acidente que o deixou inteiramente imobilizado. Vegetando, as únicas coisas que podia fazer era ouvir e ver. E foi assim que escreveu o seu livro: mexendo a pálpebra esquerda.
Retratando o processo de criação, aliado aos flashbacks e devaneios da personagem, o filme ganha o espectador à medida que avança, com uma história dramática e tocante.
Internado no hospital, ele é obrigado a confrontar-se com o passado de lembranças amargas e com a realidade debilitada. Encontra então, o apoio da equipe médica (não, a ortofonista não é Naomi Watts!) que detecta a sua capácidade de ligação com a realidade e cria um sistema, possibilitando a sua comunicação de maneira curiosa e inteligente.
É preciso ainda ressaltar a eficiência da câmera em primeira pessoa na maior parte do tempo, causando o desconforto necessário para que se entenda a fragilidade da situação da personagem. A narração irônica e desmotivada também é um elemento excelente utilizado em cena.
Apesar disso, nem tudo é drama. Conciliam-se muito bem as diversas nuances do roteiro, abrindo espaço para momentos leves e até mesmo engraçados.
Contando com um elenco coadjuvante de atrizes lindíssimas e uma trilha sonora tocante (mas que peca pela quantidade de músicas em inglês- não aproveitando todo o charme da língua francesa), o Escafandro e a Borboleta (escafandro é aquela roupa pesadíssima de mergulhador, usada no passado para quem não sabe- eu não sabia) é um filme lindo, que sabe fazer emocionar. Homenzinho dourado nele!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Laberintos de Pasiones


Almodóvar melhora através dos tempos. A sua essência continua a mesma de 25 anos atrás, mas o que se percebe analisando a sua filmografia é a riqueza criativa das produções atuais (ignorando a tecnologia e disponibilidade de recursos).
Feito em 1982, Laberinto de Pasiones é um filme incrível e divertido, que ousa e choca, mas tem pouco a acrescentar.
O título é auto-explicativo. Uma rede de personagens se entrelaça, todos movidos pelo desejo e pela paixão. O príncipe Riza Niro é um homossexual que foge da sua terra para viver libertamente em Madrid. Passa a cantar numa banda de rock e conhece Sexília (Cecíla Roth) (!), uma ninfomaníaca incapaz de sentir algo além do prazer sexual. O improvável acontece, eles se apaixonam e decidem fugir, pois ele passa a ser perseguido por um grupo de islâmicos seqüestradores (sendo um deles Antonio Banderas inacreditavelmente jovenzinho). Ainda há uma quantidade grande de coadjuvantes com as suas próprias histórias, como a ex-rainha má Toraya, a menina da lavanderia, tiete de Sexília, que é aliciada pelo pai esquizofrênico, entre outros.
Absurdo e nonsense, o filme é uma sucessão de bizarrices que chocam o espectador. Fruto da proposta pós-Franquista que marcou o início da carreira de Almodóvar, quando o objetivo em tela era ironizar os modos da sociedade espanhola, que ainda sofria com os reflexos da ditadura que comandou o país durante anos. Laberintos... é podreira pura, mas que vale a pena e ainda tem uma trilha sonora ótima!