sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Nesta data querida


Quem nunca preparou uma festinha de aniversário tradicional (e sordidamente brega)? Quem nunca se preocupou com as bebidinhas, com a quantidade de comida e principalmente, sempre teve medo que ninguém comparecesse?
É inerente ao ser humano. É inerente também a hipocrisia das relações sociais: os abraços, os beijinhos de bochecha, o falar mal depois. É por questões como essa que Nesta data queria se enreda.
Transitando pelo lúdico e [fincando-se] pelo amargo, o espetáculo causa, antes de tudo (talvez de propósito, talvez ao acaso), uma viagem obrigatória do espectador às próprias lembranças.
Quando nem o próprio filho comparece ao festejo organizado por Antonieta, ela recebe a visita de dois recentes conhecidos- completamente estranhos, desconfortáveis. Tão perdidos quanto à anfitriã, iniciam uma relação artificial, em busca de uma comemoração vã, onde procuram suprir desesperadamente as suas carências emocionais (a atuação atravessada, indireta dos atores no palco se dá de maneira brilhante).
O clima lento, mantém a atmosfera opressora, assim como a trilha sonora desgraçadamente cansativa, ironiza e não deixa que a peça permaneça em tom funesto por todo o tempo.
Um produto alternativo de alguns do Dimenti (dirigido por Márcio e estrelado por Fábio Osório Monteiro, Lia Lordelo e Paula Lice), Nesta data querida assusta, alegra, provoca e principalmente, engasga.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

O Mochileiro das Galáxias- não saia sem ele.


Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega da borda ocidental desta galáxias, há um planetinha verde azulado absolutamente insignificante cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivas que ainda acham que relógios digitais são uma grande idéia. Além disso não conhecem O Guia do Mochileiro das Galáxias, um livro que não é da Terra, jamais foi publicado nela e é, provavelmente, o mais extraordinário dos livros publicados pelas grandes editoras da Ursa Menor.
Consultando-se a Calculadora Geradora de Improbabilidades, nada mais apropriado para iniciar este texto do que um plágio-parafraseado da obra a ser tratada. O Guia do Mochileiro das Galáxias é a obra literária mais irreverente, irônica e não ortodoxa que já li.
Descobri o livro numa pequena crítica nas páginas de uma revista. Assim que comprei, consumi em menos de 24 horas. Até que descobri que era o primeiro volume da chamada pelo autor Douglas Adams "Trilogia de quatro livros" (na verdade, cinco) e tive de esperar o relançamento maçante (cerca de um por semestre) da Sextante.
O interesse pelo desconhecido, pelo novo, sempre me motivou. O céu e o espaço, com suas áuras de mistério, me encantavam. Apesar disso, nunca almejei ser astronauta na infância- talvez por saber que a galáxia não é mais tão hype como no Guia do Mochileiro e em Barbarella.
A sexy e devassa militante espacial vivida por Jane Fonda no cinema da década de 70, é contemporânea à obra de Adams. Numa época em que a tecnologia tece a sua explosão consumista, podia-se imaginar mais, interagir com o desconhecido. Mas isso não é sobre Barbarella e a sua absurda, cafona e deliciosa odisséia sexual no espaço. É sobre Arthur Dent e sobre O Guia.
Apesar do que se pode sugerir, O Guia não é um dicionário de verbetes inventados sobre uma possível vida interplanetária. Irreverente e irônico, como já dito narra a história do insosso Arthur Dent a partir do dia em que descobre através do seu amigo E.T ( que viera à Terra como correspondente da maior e mais incrível enciclopédia já publicada) que o planeta será demolido para fins burocráticos. Conseguindo carona numa nave Vogon, eles escapam da destruição e encontram-se com as outras personagens que integram o grupo que fará parte de toda a história. Em meio a muitas reviravoltas, eles terminam seguindo atrás do sentindo da vida, do universo e tudo mais.
Nonsense? Isso é só o começo. Desde a época em que foi lançado, o livro virou referência de cultura pop para toda uma geração. Influenciou inúmeras criações: já foi série de tv, programa de rádio, utilitários de computador (Trillian e Babelfish), música do Radiohead (Paranoid Android, em homenagem ao robô Marvin) e uma fraca adaptação nos cinemas em 2005. Com certeza ainda influencia muita coisa legal, talvez por isso eu goste tanto. E se alguém, algum dia se interessar para ler e fizer alguma idéia da Pergunta Fundamental, que me explique o 42!

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Bubble


Vale a pena assistir a Bubble. O filme se propõe a mostrar uma Tel Aviv diferente dos padrões jornalísticos. Composta por uma juventude israelense que, como em qualquer outro país é influenciada por culturas e valores estrangeiros. Mas isso é mostrado naturalmente, sem ser taxativo ou alienado.
Três amigos vivem uma vida tranqüila num bairro cool, conhecido como A bolha (daí o título). Até que um deles se apaixona por um palestino gay e é reprimido. E daí a história se desenrola com humor e delicadeza.
Refugiado, ele adota uma outra identidade para poder viver o romance, mas esse não é o único ponto de discussão do roteiro, pois inúmeras coisas se sucedem, protagonizadas pelos outros moradores do apartamento (ótimos), que não fazem o filme perder o seu ritmo.
Leve e comprometido no ponto certo, a história é envolvente. O diretor Eytan Foz (de Yossi & Jagger - dos soldados gays que fez algum sucesso no Brasil) acertou na escolha do elenco, que além de possuir ótimas atuações, encontram-se numa sintonia brilhante (com destaque para Lulu, absurdamente linda. E se é pra falar de beleza, destaquemos o Golan, também!!).
Apesar dos sucessivos pontos ganhos por Bubble, a qualidade do filme descamba no final. Um fechamento forçado e piegas soa artificial e traz a tona certos questionamentos: (PODE CONTER SPOILERS)
- O Oriente Médio é realmente um campo de guerra?
- Por mais fofos que possam parecer os palestinos, no dia em que acordarem de mau-humor eles foderão com as nossas vidas??? (FIM DO PROVÁVEL SPOILER)
Ainda assim, é uma produção que merece ser apreciada. Faz rir, pensar e se emocionar, além de ser uma opção muito mais produtiva do que as comédias estúpidas de Ben Stiller-sempre-à-beira-de-um-ataque-de-nervos.

domingo, 11 de novembro de 2007

Chá de Cogumelo


Desconstruir as fábulas Dysneicas não é idéia das mais frescas (lembrando dos milhões que a DreamWorks já catou com a febre de Shrek - a referência mais recente), mas de que importa? A diversão é assegurada e ainda assim, pode-se ser muito original.
O grupo teatral Dimenti fechou com sucesso o Festival Nacional de Teatro na Bahia, com a montagem "Chá de Cogumelos", que faz isso mesmo: desconstrói da maneira mais irreverente os contos infantis. Dessa forma, através de sucessivas doses de "chá de Cogú", a peça é marcada por momentos protagonizados por personagens absurdas: uma Chapeuzinho Vermelho lasciva, uma Maria fria e calculista, uma Bruxa quilombola, uma Rapunzel assassina, uma Fada sapatão, seguidas de uma série de outras figuras incrivelmente toscas e caristmáticas, que florescem na trama aparentemente desconexa, mas que ganha um sentido no final.
Através desses seres com personalidades desvirtuadas de valores éticos ou morais (ou excessivamente morais, libertários etc), vão sendo feitas críticas sutis e muito convenientes ao modelo de pensamento social atual.
Os atores se revezam nos inúmeros papéis, mesclam música e dança ao processo de criação (característica do grupo), tornando o onírico mundo dos seres encantados um universo mais alucinado ainda, cheio de referências de cultura pop e de cultura descartável.
Pra quem não viu, resta esperar as comemorações de 10 anos da companhia, já que prometem um 2008 de comemorações intensas. Pra quem quer ver logo, em dezembro eles ficam em cartaz no Teatro Gamboa (que com fé em Deus deve ter aproveitado o crediário da Ricardo Eletro e comprado, ao menos, um ventiladorzinho da Mallory), com uma outra montagem.
E lembrem-se: “soldado morto, farda noutro, pô!”

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

O Mentiroso



O Mentiroso é uma adaptação de um texto italiano escrito há 250 anos atrás. Na época em que foi concebido, os valores eram outros, assim como os anseios da sociedade e era normal escrever tudo como comédia. Mas precisava mesmo chegar ao palco baiano tão bobinho?
Montado pelo Curso Livre de Teatro da UFBA, a peça parece ser essencialmente televisiva. Os que ocupam a posição de protagonistas são bonitos e fofinhos, enquanto os coadjuvantes são os não tão fofinhos assim. O humor é uma coisa meio Didi encontra Sai de Baixo.
No melhor (!) estilo novela das 6, o enredo gira em torno de casamentos e galanteios entre a alta sociedade. Lélio dos Humildes se aproveita dos feitos alheios para roubar o coração das virgens ricas. Nesse embalo, acaba se apaixonando verdadeiramente, enquanto se enrola cada vez mais nas suas próprias mentiras. Nesse contexto, brotam as personagens secundárias: o fiel Arlequim, seu pai, o futuro sogro, o amigo-rival...
O cenário é simplório por demais, assim como a trilha sonora e a iluminação, o que diminui muito as chances de se ter ao menos um verdadeiro espetáculo técnico. Sobra então um roteiro burocrático e previsível, com piadinhas famigeradas, difíceis de engolir, além de ser recheado de atuações insossas (com exceção da Colombina, a única a aproveitar os bons momentos da sua personagem). Bom pra dormir.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Casa de ferro

Ainda me lembro da cena de uma novela ruim, de quando eu era pequeno: Babaloo e Raí (maravilhosamente canastrões) iam para o teatro. Ao chegar lá, tinham as suas roupas arrancadas pelos atores e eram carregados para o meio do palco, nus. Desesperados, conseguiam fugir e eram obrigados a usar vestes feitas com jornal dobrado para enfrentar a odisséia de chegarem em casa vivos. Ao fazer o passeio, o casal, um tanto popular, não sabia uma coisa: era teatro experimental.
Ainda aproveitando a febre artística da cidade, fui conferir A casa de Ferro, que integra o quadro do Festival nacional de teatro na Bahia.
Não, eu não tive as minhas roupas rasgadas, nem fui levado ao palco. Mas o sentimento de panaca foi o mesmo.
O monólogo é sobre os dramas da escravidão (UAU) no Brasil e os efeitos gerados por ela. Metade em ioruba, metade em grito, metade em choro. Vestido numa tanguinha fio-dental, o ator deu show de Ioga, com direito a banho de lama, água, farinha de trigo. Uma meleira.
Antes que me crucifiquem como tapado, aviso que não tenho nada contra espetáculos experimentais; desde que sejam experimentados com parentes e amigos dos envolvidos, antes de qualquer coisa.
Some-se isso a uma apreciação num teatro apertado e com o ar condicionado desligado. Transgressão público-enredo?? Câmara de tortura?? Problemas técnicos?? Tanto faz, foi o suficiente para se deixar um espectador irado.

O Sapato do meu tio

(Manú Dias, eu não te conheço. Mas tendo eu encontrado apenas essa foto de qualidade para ilustrar o meu post, e observando lá no outro blog que os créditos iam pra você, achei de bom caráter creditar aqui também. Então:)
-foto de Manú Dias. :D

A primeira edição do Festival nacional de Teatro na Bahia começou bem de público (que lotou a sala principal do TCA para prestigiar), e de espetáculo: O Sapato do meu tio é uma coisa linda.
Dona de algum sucesso em Salvador no ano passado, a peça tem um enredo simples - de cidade em cidade, pelas estradas, um palhaço segue a vida, levando a sua arte para os lugarejos distantes. Junto a ele, acompanha o seu sobrinho, um ajudante e aprendiz do ofício vítima da rudez natural do seu tutor, mas que mesmo assim, transborda uma infantilidade graciosa.
O grande trunfo do espetáculo é a sua total falta de diálogos. A história é contada através dos atos das personagens e da música de picadeiro, que mantém constantemente a aura de circo no ar.
Nessa homenagem sincera e comovente ao teatro mambembe, o que surpreende é a sintonia da dupla, assim como o seu preparo com as artes circenses. O humor característico soa por muitas vezes, bobo e inocente - e justamente por isso é tão lindo.
Apesar disso, o recurso do datashow inserido no teatro é interessante, mas imensamente delicado: é legal ver créditos, passagens ou detalhes a mais que dão base para o desenvolvimento do espetáculo; porém desconcentra ver a marca do dvd e os comandos de ação do aparelho (play/pause). Quebra o ritmo, o envolvimento com a coisa.
Talvez, a grande duração da peça (contrariando as expectativas de quem espera algo compacto, por ser mudo), tenha assustado o público, que por inúmeras vezes aplaudiu, considerando o seu fim (não cito aqui as cenas impagáveis de humor, e sim o que parecia ter acabado mesmo). No entanto, a leveza que encanta a alma só deixa em todo público, as melhores lembranças de duas horas de lirismo puro.