domingo, 19 de agosto de 2007


Aprendi na faculdade, que mesmo que seja muito ruim, devemos nos permitir ousar a escrever. Aqui vai a minha primeira crônica. Bem ou mal, mais pra mais ou mais pra menos... tá feita!



“Boa tar-de-pes-so-al. Des-cul-pe-in-ter-rom-per-o-si-lên-cio-da-via-gem-de-vocês! É que chegaram os novos chocolatinhos...” o 5º ou 6º vendedor adentra o ônibus me corroendo o resto de paciência. A rotina maçante que tem o transporte público como elemento indispensável, me exaspera e me dói.
Tudo começa com a espera. O arrocha/rap/gospel toca (pelo pirata) no ponto lotado que vai esvaziando à medida que os intermunicipais passam. Mas estudante sofre na veia, só entra no que aceita SalvadorCard. Uma hora ele chega. Ágil e prontamente o celular vai pro pinto, pra evitar que me levem num possível assalto. Sento-me na antepenúltima cadeira livre, na frente das crentes, que resenham (atribuindo juízo de valor, sempre) sobre a vida de uma terceira irmã, ausente no recinto, é claro. Fico sabendo que ela é casada, 2 filhos, batalhadora [“glória a Deus!”]. Aceita normalmente a traição do marido [“que Deus me livre!”], porque na bíblia diz que o esposo pode ter duas mulheres, não pode é ter relação com outro homem [“tá repreendido!”]. É bom poder ouvir a vida alheia, mas quando é facultativo o ato de ouvi-la clandestinamente, sem que me percebam. Troco de lugar.
Enquanto isso, os baleiros se revezam. O mesmo texto, uma entonação variante. A graça é criar uma voz original, irritante e de apelo comercial, o que parece funcionar. Alguns compram amendoim e balinha de gengibre, no entanto, a maioria finge não notar a existência ínfima deles (reparem nessa relação do pobre com o subalterno- por exemplo, o quanto alguns parecem gozar ao sentirem-se poderosos ao sacanearem morbidamente com o garçom irresponsável num boteco qualquer de um bairro qualquer). Olhares para o horizonte indicam um súbito ar superior de “Oh, porra! Eu tenho mais o que fazer!”
A viagem segue ao lado de uma escova de chocolate (classicíssima, lendo uma revista sobre concursos), a coisa parece calma. Mas em 5 minutos o enjôo bate. Tem coisa pior que chocolate-sem-cheiro-de-chocolate? É algo doce, extremamente doce, enjoativo, irritante- que não é chocolate.
Divago mentalmente sobre a indústria da estética e a maldita “boa aparência” cobrada em todos os lugares. Mas elas adoram e não reclama, 2,4,6,8... 8 fêmeas, com as sua escovas metodicamente aplicadas (algumas já desgastadas pela ação dos dias seguidos). Todas de janelinha fechada, pra não bagunçar as suas madeixas retas. O cheiro da amiga ao lado é realmente incomodo, me mudo para uma cadeira solo que vagou, começo a ler.
O cobrador que freta com a estudante de cabelinho miojo percebe a minha constante troca de assentos, mas volta logo ao seu joguinho pré-sexual costumeiro.Bate uma chuva fraca. Todo mundo fecha as suas janelas e quando o sol abre e esquenta, ninguém abre novamente, tornando um ônibus uma espécie de estufa móvel, uma cápsula de doenças (em potencial nas épocas mais frias).
O v3 Black da última geração passada, parcelado em 72 vezes do homem à frente toca, ele faz charme para que todos ouçam o quão legal é a música que chama e quando atende, berra. Esquece que celulares são providos de um microfone que permite uma audição confortável do outro falante na linha. Mas ele grita, fazendo todo mundo ouvir a sua conversa. Marca qualquer programação para o fim de semana, pergunta das novidades, conta as dele. E desliga finalmente.
Finalmente também, chego ao meu ponto de descida. Quase no fim de linha, depois de engarrafamentos em portas de escola e assistir ao show de infinitas figuras bizzaras, desço. Agradeço a Deus, Buda, Jeová, Chico Xavier e Mãe Menininha por ter chegado vivo. Me dói pensar que mais tarde tem mais, com o ônibus deliciosamente lotado. E eu, em pé.

5 Comentários:

Blogger Pedro disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

19 de agosto de 2007 21:02  
Blogger Pedro disse...

aviso aos desavisados: isto não é mera ficção. Passei essa merda toda pra escrever isso. E ainda passo.

19 de agosto de 2007 21:09  
Blogger Carmem Silvia disse...

Gostei da primeira aventura pelas novas zonas da escrita!
Beijo!

21 de agosto de 2007 05:57  
Blogger ari disse...

Amigo, mt legal, gostei mesmo!!!acompanharei sempre, quero ver a construção do escritor... Viva Petrussss

21 de agosto de 2007 06:02  
Blogger Francisco andre disse...

Gostei de ter a honra de apreciar o primeiro desafio de um promissor escritor. Mais ainda ao saber que esse conto partiu de sua experiencia real.
Me identifiquei com cada imagem tecida na paisagem do conto. Dava pra sentir o cheiro, a cor, o movimento, os sons do ambiente através de suas palavras.
Confesso que elas nao chegaram até a mim como notas de uma doce cançao. Suas palavras desnudam um cotidiano sem brilho, e marginal. Me lembrou muito o livro "O cortiço" e o filme "cidade Baixa".
Como sonhador que sou, confesso que enxergaria no cotidiano um pouco mais de alegria e esperança, mesmo dentro desse contexto, onde no seu conto você só enxerga a "feiura".
MAs isso nao chega a ser um defeito, pois pelo que percebi nas suas escritas anteriores, pessimísmo não faz parte de sua
poética.
Ah, quero ler o proximo, viu!! Quero que os personagens reais que conhecemos possam fazer boas participações nos seus próximos contos.

21 de agosto de 2007 15:18  

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial