sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Todas as cores do amor


Todo mundo sabe que a Irlanda é um país da Europa. E ponto, as informações param por aí. Pouco se sabe além, inclusive sobre a sua produção cinematográfica. Justamente por esse motivo, deve-se conhecer Todas as cores do amor, um filme de 2003 que surpreendentemente existe em dvd nas locadoras.
Fazendo uma alusão ao título original- Goldfish Memory, o roteiro é centrado na suposta idéia de que os peixinhos dourados só possuem 3 segundos de memória, logo, tudo é novidade para ele, a toda hora. Com os humanos, acontece o mesmo, a cada paixão renovada. As dores anteriores se apagam, e só o que importa é o novo.
A partir dessa suposição (e de inúmeras referências ao tal peixinho), um numeroso e simpático elenco encarna com graça e simpatia as personagens do enredo, tornando diversidade a palavra-chave da história.
Um professor quarentão fútil leva a vida encantando as aluninhas; uma jornalista lésbica sonha com uma vida conjugal ao lado de um grande amor; o seu amigo gay amorosamente independente se apaixona (e é correspondido) por um heterossexual com problemas de relacionamento, e mais um bom punhado de personagens de apoio que vão ganhando importância ao longo do desenvolvimento.
Se a história, leve e engraçada (chegando a apelar para um pastelão desnecessário, às vezes) não chegar a seduzir tanto o espectador, vale pela aura e imagens incríveis de Dublin- uma cidade belíssima que aparentemente sabe respeitar as diferenças (esqueçamos por um momento os conflitos sócio-políticos que permeiam a sua história). A trilha sonora surpreende também- é toda marcada por bossas novas de Tom Jobim, cantadas num sotaque bizarro. Uma delícia.

veja o trailer:

quinta-feira, 30 de agosto de 2007


A especialização de um indivíduo numa profissão gerou o vestibular.
A necessidade de se passar no vestibular pra ser “alguém na vida” gerou indivíduos neuróticos.
A pressão em cima desses indivíduos para uma aprovação certeira no exame, gerou os cursinhos pré-vestibulares.
Os cursinhos geraram uma nova linhagem social, composta de seres imortais, acima do bem e do mal e de um charme inigualável: o professor de cursinho.
Os papas do vestibular sabem de tudo: todos os macetes, todas as manhas. Com eles, a aprovação é garantida. Um grupo seleto e quase fechado, que se repete e pouco varia nas inúmeras casas do ramo. É daí que surge a fama, o status de celebridades locais: todo mundo conhece, todo mundo gosta, todo mundo ama.
A irreverência e a originalidade ao quebrar os paradigmas da estrutura escolar e dar aulas ágeis em meio a baixarias e piadas que animavam o tempo do cafunga, (preconceituosas, na maioria das vezes, porque a ética inexiste) contribuem para esse sucesso. Além disso, escarnecem tudo: a educação, os alunos, os colegas, o mundo- porque fazer crítica social é muito cool- uma forma de enaltecer a si mesmos, os detentores do conhecimento, que sabem aplicar o assunto do alto da sua boçalidade ostensiva, exibindo os seus celulares caros, laptops- brinquedinhos eletrônicos de charlar.
A condição de destaque na frente da sala e a suposta maturidade despertam a mais profunda curiosidade guardada nas entranhas ginecológicas das alvoroçadas alunas, que dedicam as suas rotinas ao estudo e à arte do frete। Muitas delas são correspondidas pelos anciões (alguns ainda guardam resquícios da simpatia de outrora, é verdade) obcecados em demonstrar para si mesmos o quanto ainda podem ser machos viris.
Bestificados, os neuróticos assistem।Alguns se deixam levar pelo lado lúdico da coisa e sem muito senso crítico conseguem se divertir. Os que sobram, padecem. Fazem o que podem para aproveitar do que se aprende do show. Sabem que terão de vê-lo novamente se não conseguirem dar conta do recado. Esganam-se, gritam e acendem uma vela pro Expedito, pra ver se pelo menos rola de ser alguém na vida.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Sonhos de uma noite de verão


Sonhos de uma noite de verão pode parecer mais uma obra entusiasmada sobre o orgulho negro e a discriminação étnica (tema um tanto malhado por aqui), mas não é. Pode assustar também os não tão fãs do teatro grandioso, colossal, com inúmeros artistas contracenando, mas não chega a tanto.
Com esses pré-conceitos iniciais vencidos, Sonhos... Faz-se uma surpresa agradável. Baseado na obra de Shakespeare de mesmo nome, a peça é uma adaptação espirituosa que mescla ritmos musicais populares com a fala rebuscada e dramática da obra original. Utiliza o mesmo cenário- o palco praticamente vazio- para contar duas histórias paralelas que se interligam: na Grécia Clássica, um grupo de pessoas comuns prepara-se para encenar uma tragédia para o rei e seres humanos e encantados desencontram-se amorosamente às vésperas de um casamento da aristocracia.
O problema da peça está justamente na escolha da atriz de destaque. Hérmia, que deveria ser uma personagem graciosa e/ou ao menos simpática, é encarnada por uma atriz fraquíssima, sem presença alguma de corpo ou voz (uma espécie de Mariana Ximenes dos palcos baianos), ficando ofuscada pela original e singular colega de palco, intérprete de Helena. O roteiro também parece ser um pouco confuso, pois não deixa claro as reais intenções do soberano e a sua relação com o acontecimento.
Mas aspectos positivos superam essas imperfeições.As oníricas fadas encantam pelo som e beleza das danças (numa possível e maluca alusão às dançarinas do Moulin Rouge- o que funciona muito bem). Os Pucks, indispensáveis para o desenvolvimento do enredo, roubam a cena por serem engraçados e absurdamente depravados, amorais. Seres sexuais, antes de tudo.
No entanto, o cansaço toma o espectador perto do final da montagem, pois perde-se muito tempo ao encenar na dramatização, a tragédia ensaiada pelas personagens ao longo da peça. Um roteiro mais enxuto encurtaria o tempo de duração da peça (duas horas), deixando-a com mais fluidez. Ainda assim Sonhos de uma noite de verão é uma boa atração em cartaz, para quem preza por um espetáculo interessante, muito bem ensaiado e de bom gosto.

domingo, 19 de agosto de 2007


Aprendi na faculdade, que mesmo que seja muito ruim, devemos nos permitir ousar a escrever. Aqui vai a minha primeira crônica. Bem ou mal, mais pra mais ou mais pra menos... tá feita!



“Boa tar-de-pes-so-al. Des-cul-pe-in-ter-rom-per-o-si-lên-cio-da-via-gem-de-vocês! É que chegaram os novos chocolatinhos...” o 5º ou 6º vendedor adentra o ônibus me corroendo o resto de paciência. A rotina maçante que tem o transporte público como elemento indispensável, me exaspera e me dói.
Tudo começa com a espera. O arrocha/rap/gospel toca (pelo pirata) no ponto lotado que vai esvaziando à medida que os intermunicipais passam. Mas estudante sofre na veia, só entra no que aceita SalvadorCard. Uma hora ele chega. Ágil e prontamente o celular vai pro pinto, pra evitar que me levem num possível assalto. Sento-me na antepenúltima cadeira livre, na frente das crentes, que resenham (atribuindo juízo de valor, sempre) sobre a vida de uma terceira irmã, ausente no recinto, é claro. Fico sabendo que ela é casada, 2 filhos, batalhadora [“glória a Deus!”]. Aceita normalmente a traição do marido [“que Deus me livre!”], porque na bíblia diz que o esposo pode ter duas mulheres, não pode é ter relação com outro homem [“tá repreendido!”]. É bom poder ouvir a vida alheia, mas quando é facultativo o ato de ouvi-la clandestinamente, sem que me percebam. Troco de lugar.
Enquanto isso, os baleiros se revezam. O mesmo texto, uma entonação variante. A graça é criar uma voz original, irritante e de apelo comercial, o que parece funcionar. Alguns compram amendoim e balinha de gengibre, no entanto, a maioria finge não notar a existência ínfima deles (reparem nessa relação do pobre com o subalterno- por exemplo, o quanto alguns parecem gozar ao sentirem-se poderosos ao sacanearem morbidamente com o garçom irresponsável num boteco qualquer de um bairro qualquer). Olhares para o horizonte indicam um súbito ar superior de “Oh, porra! Eu tenho mais o que fazer!”
A viagem segue ao lado de uma escova de chocolate (classicíssima, lendo uma revista sobre concursos), a coisa parece calma. Mas em 5 minutos o enjôo bate. Tem coisa pior que chocolate-sem-cheiro-de-chocolate? É algo doce, extremamente doce, enjoativo, irritante- que não é chocolate.
Divago mentalmente sobre a indústria da estética e a maldita “boa aparência” cobrada em todos os lugares. Mas elas adoram e não reclama, 2,4,6,8... 8 fêmeas, com as sua escovas metodicamente aplicadas (algumas já desgastadas pela ação dos dias seguidos). Todas de janelinha fechada, pra não bagunçar as suas madeixas retas. O cheiro da amiga ao lado é realmente incomodo, me mudo para uma cadeira solo que vagou, começo a ler.
O cobrador que freta com a estudante de cabelinho miojo percebe a minha constante troca de assentos, mas volta logo ao seu joguinho pré-sexual costumeiro.Bate uma chuva fraca. Todo mundo fecha as suas janelas e quando o sol abre e esquenta, ninguém abre novamente, tornando um ônibus uma espécie de estufa móvel, uma cápsula de doenças (em potencial nas épocas mais frias).
O v3 Black da última geração passada, parcelado em 72 vezes do homem à frente toca, ele faz charme para que todos ouçam o quão legal é a música que chama e quando atende, berra. Esquece que celulares são providos de um microfone que permite uma audição confortável do outro falante na linha. Mas ele grita, fazendo todo mundo ouvir a sua conversa. Marca qualquer programação para o fim de semana, pergunta das novidades, conta as dele. E desliga finalmente.
Finalmente também, chego ao meu ponto de descida. Quase no fim de linha, depois de engarrafamentos em portas de escola e assistir ao show de infinitas figuras bizzaras, desço. Agradeço a Deus, Buda, Jeová, Chico Xavier e Mãe Menininha por ter chegado vivo. Me dói pensar que mais tarde tem mais, com o ônibus deliciosamente lotado. E eu, em pé.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Trainspotting


Para ter uma liberdade maior de escrever sobre filmes diversos, lanço aqui a seção TARJA AMARELA, propondo a discussão de obras mais antigas, perdidas entre a poeira das estantes mais obscuras das locadoras...

Mark Renton é o anticristo. Mas também é o anticristo mais legal do cinema. Ele trapaceia, rouba e destrói os amigos, com uma amoralidade singular, banhada de questionamentos morais (!), críticos e filosóficos.
Interpretado por Ewan McGregor antes de se tornar propriamente um astro do cinema mundial, Renton é o protagonista de Trainspotting, um filme europeu de 96 baseado na obra homônima de Irvine Welsh, que se dispõe a narrar o submundo viciado da juventude de classe média escocesa. Ele e seus amigos recusam-se a viver uma vida de mediocridade consumista e encontram na heroína o escape de todas as obrigações sociais. Acompanhado a isso, vêm todos os pesares do vício: a chegada ao inferno, a recuperação, as recaídas. Tudo isso retratado com agilidade e um certo humor sombrio. Não de forma enfadonha, fantasiosa e pseudo-realista como um outro grande fenômeno da década de 90: Diário de um adolescente, com Leonardo DiCaprio.
Talvez por ser justamente de outro tempo, algumas coisas incomodem um pouco, como a escatologia exagerada em algumas cenas. A necessidade de chocar o espectador supera o bom senso (embora alguns consigam rir descontroladamente com a cena do lençol).
Cheio de metáforas e com uma trilha sonora marcada por eletrônicas substancialmente noventistas, o filme marcou a incrível parceria entre o diretor Danny Boyle e Ewan, que já presentearam o cinema com outras obras tão legais quanto esta (como Por uma vida menos ordinária, com Cameron Diaz).
Resta agora aguardar mais uma contribuição deles, com a esperada (e já lendária) seqüência baseada no segundo livro de Welsh. Intitulada Pornô, a continuação mostra Renton anos após a sua promissora fuga para o American Way of Life, aliado aos seus antigos amigos, lançando-se no ramo da produção do cinema de pornografia. Um dia sai.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

As Trôxas: uma comédia deslavada


Se há algo de bom em As Trôxas, é o florescimento das aspirações da peça, tramado pelos seus envolvidos. Uma “comédia de costumes, entremeada por sambas de roda compostos especialmente para a montagem, que focaliza as hipocrisias das relações humanas e usa como pano de fundo uma cidade fictícia do nordeste”.
Papo puro. As Trôxas é uma comédia ruim, digna de incorporar programas humorísticos da televisão aberta. Homens travestidos de mulher, fazendo caretas, manifestando cacoetes e o falar típico do sertanejo pobre, são as graças baratas a que se resumem a peça, como se os espectadores fossem meras crianças, que se contentam com o humor pastelão da torta-na-cara.
O cenário é simples e bonito, mas mal aproveitado. A distribuição dos atores é mal feita, colocando alguns tão no canto, que passam metade da história sem destaque algum. Destaque maior que obteriam se ao menos desenvolvessem boas atuações- com exceção do gordinho, por realmente encarnar a alma feminina e ser o portador da única piada risível de todo espetáculo.
Assusta pensar que todo um grupo de patrocinadores e colaboradores comprou essa idéia, a ponto de realizá-la e divulgá-la. Assusta pensar que para fazer sucesso na Bahia, o teatro deve ser descompromissado e descerebrado, como As Trôxas: uma comédia deslavada [de humor].

Rent


O filme não é novidade nas locadoras. Mas como nem só de lançamentos vive o homem, senti necessidade de escrever sobre ele assim que terminei de ver.
Rent começa muito bem. Com um movimento de câmera interessante, os atores são apresentados e os créditos surgem. Mas já na metade da primeira música a coisa desanda. Os excessos da música pop americana começam e o filme perde a graça gradativamente.
Narra um ano na vida de amigos boêmios compromissados contra o sistema opressor, que se drogam são vítimas do HIV (na sua maioria) e cantam. Mas o erro primordial é justamente a musicalidade do filme. As canções são fraquíssimas: diálogos cantados ruins que não possuem a rima como prioridade, bases pobres. É preciso fazer justiça, algumas são interessantes (como o Tango Maureen, o solo de Rosario Dawnson e a gracinha na mesa do bar, La Vie Bohéme), mas não são suficientes para salvar o filme.
Além de tudo, é um musical de estereótipos: compõem o ciclo de personagens, O Roqueiro infectado, O Certinho, A Puta Viciada, A Sapata, A Promiscua, O Mano e O/A Travesti Aidético. Prega a liberdade de comportamentos, mas não propõe discussões mais profundas, não retira os paradigmas que envolvem esses tipos nos clichês habituais da sociedade. Estão todos ali, exercendo papéis “comuns”, esperados pela sua conduta errônea.
Baseado numa montagem da Broadway da década de 80, Rent, que se passa na mesma época, deveria emocionar por tratar da explosão da AIDS na América e falar da miséria humana, mas acaba se perdendo e adotando a cafonice característica do período com seriedade, aí já vira motivo de piada.